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Marcelo Giangrande

Marcelo Giangrande

Eu achava que a MG Music era maior que o próprio Marcelo, mas agora eu tenho a certeza que não.

Quem não o conhece, tá perdendo muito. Quem é músico e não o conhece, tá perdendo tudo. Metade do que eu sei sobre efeitos, aprendi na MG.

Ele não entende apenas de amplificadores. Entende de efeitos. Entende os sons. Ouve música no silêncio. Toca guitarra demais…

Perguntei uma vez desde quando ele tocava guitarra, um pouco dessas invejas que a gente finge que é do bem, mas é inveja mesmo. “Desde os 17“, ele disse. Mesma idade que eu comecei a tocar. “E você tocava bem na minha idade?“, ele disse que foi para os EUA na minha idade.

Pra que?

“Por que eu ouvia uns sons que não tinham no Brasil. Eu queria ter uma Gibson, eu queria ter um Fender“. Perguntei ainda com o que ele foi para os EUA, “com uma Kramer“.

Demais… Uma Kramer. Dessas que vende em magazine. E trouxe a Kramer de volta? “Não, trouxe um Bassman 65, um Twin Reverb 93, um Pro Reberb 63, duas Fenders.”

“Como você trouxe tudo isso, cara? Você trabalhava em loja de música?“, eu perguntei. Nada… Trabalhou como – MESSENGER – de um estúdio, entregava recados de carro. Tipo um motoboy das antigas. Foi até a casa do Genne Simons, do Sting, do Bob Dylan. E levava o que? “Ah, tinha de tudo. As vezes eu nem me perguntava o que era, só levava mesmo. Eu queria só era usar o estúdio nas horas vagas.“

Perguntei se ele usou o estúdio. “Bixo! Nunca toquei tanto na minha vida, eu tocava o tempo todo. Toquei em tudo que é amplificador, tudo quanto é guitarra. Tenho gravações, vem ouvir, até hoje eu penso como que podia tocar daquele jeito em 88.“

Contou que ele chamava os amigos para irem para o estúdio, ver a banda ensaiar, e que a cada semana iam mais e mais pessoas novas, até um dia que eles contaram e tinha mais de 80 pessoas no estúdio. Que virava festa. “Uma pena que nunca mais fui assim, era uma delícia.“

Ele me contando tudo isso, e eu ficando só quieto.

Só que já teve vez de eu ir na MG Music e ter 10, 15 guitarristas lá. O pessoal fala que tem que fazer reparo em pedal e amplificador, mas a verdade é que o pessoal vai pra ver o Marcelo, tocar com o Marcelo e ouvir o Marcelo tocar.

É verdade, já levei meu amplificador pra ouvir o Marcelo tocar. Parece que sai mais som na MG Music do que em qualquer outro lugar.

Perguntei se ele fundou a MG Music em 94, quando voltou para o Brasil. Mas não, foi fundada em 2004. “Eu agonizava de vontade de mostrar pra todo mundo esse som que eu ouço na minha cabeça. Deus falou pra mim, Você vai ter que montar uma empresa de ponta“.

“Mas nem sempre foi assim, a gente abominava amplificador valvulado em 1980. Era um inferno, pesado pra caramba, dava trabalho“.

Tra-ba-lho. Haha!

E quando que começou a gostar de valvulado? “Acho que foi Deus, sério. Uma vez meu amplificador transistor queimou. Foi castigo“.

Mas o que acontece é que o destino fala em códigos.

“Sempre ouvi música, desde menininho novo. HELP mudou minha vida. Eu tinha um compacto duplo, e ficava ouvindo o dia inteiro a música. Até que eu descobri que tinha outro lado. Lembro até hoje, era a música NOT A SECOND TIME. Mudou minha vida ouvir aquela música sensual, colorida“.

Colorida? Eu não entendi nada.

“Ué, você não vê cor na música? Eu vejo o tempo todo“.

Aprendi, também, a ouvir Stones com o Marcelo. Eu era bobo demais para gostar de Beatles e Stones ao mesmo tempo. Amava o Sgt. Peppers e não sabia nada do Beggars Banquet. O Marcelo me mostrou o LP e disse: “Incomoda no começo. É estranho, mas o que não rasga não é profundo“.

Hoje eu sei ouvir cada harmônico das músicas dos Stones. Ou acho que sei, por que cada vez que vou até a MG Music – fingir que tem reparo nos meus pedais -, ouço um harmônico diferente. Uma cor diferente.

E sempre que chego, o Marcelo tá testando cada um dos pedais que é fabricado, cada regulagem, cada função. Aprendi que linha de montagem não existe quando você quer fazer música de verdade. Que o iPod te mostra o que é música até a página dois.

“As pessoas tem que entender que o material de que é feito o iPod não é o mesmo material que é feito o ouvido humano. A gente tem que acostumar a ouvir timbre bom. As bandas tem que durar mais. A música tem que ser mais profunda“.

Falei para ele escrever sobre isso. Ele disse: “Não, escreve você. Eu quero tocar“.

Eu entreguei o meu amplificador e disse: “Po Marcelo, então testa meu ampli que não tá legal“.
Antes, eu achava que a MG Music era maior que o Marcelo, mas hoje eu tenho a certeza absoluta que o Marcelo é muito maior que qualquer empresa de amplificadores e pedais.

por Igor Fediczko, guitarrista
@igordisco

O Dr. Frankenstein do rock brasileiro

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